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domingo, 12 de agosto de 2012

Cata - Vento - Poesia

O cata-vento e o ventilador - Luís Camargo


O cata-vento e o ventilador

O cata-vento andava meio triste,
Meio chateado,
Porque o tinha vento
Para catar,
o tinha vento para ele girar.
O azul-claro, o azul escuro,
A cor de abóbora, o vermelho,
A cor de gema e a cor de clara,
Estavam todas paradas
No cata-vento,
Meio tristes,
Sem se mexer. Mas o ventilador,
Que sabia fazer vento,
Se ligou na tomada
E começou a girar
E girou o vento
E o vento girou o cata-vento. E o cata-vento gostou tanto, tanto
Que deu um abraço bem forte,
Bem gostoso no ventilador.

Luís Camargo

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Presença africana - Alda Lara

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!...
- A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras...
A do sol bom,
mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
Sim!, ainda sou a mesma.
- A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11...Rua 11...)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...
Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a pPresença Africana,
a força destes dias...
E eu revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa historia inconseqüente...
Terra!
Minha, eternamente...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando,
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...

Benguela, 1953 ( de Poemas, 1966)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Aquário - Alice Gomes

Vivia no mar largo
e era feliz
feliz.
Sabia os sítios seguros
onde os maiores e mais duros
não podiam atacar
não o podiam caçar
não o podiam comer.
E continuava a viver.
Quando nadar o cansava
uma alga procurava
e dormia um bocadinho
e a onda que o embalava
era amiga do peixinho.
A onda amiga ondulava
enquanto o acalentava
aquecia
arrefecia
e para longe o levava.
Tão longe
tão vasto o mundo…
o seu mundo!
Tão largo, alto e profundo!...
Que alegria de nadar!
Mas um dia aconteceu
que um fenómeno se deu:
foi pescado
foi levado
para fora do seu mar
para longe do seu lar
transportado
bem fechado
numa prisão de cristal.
E
se não lhe fizeram mal
se o não comeram com sal
está muito descontente
nessa prisão transparente
à vista de toda a gente.

Alice Gomes
Bichinho Poeta: Poesia (também para crianças)

Lisboa, Gráfica Santelmo, 1973